Você já tentou contar a sua dor para alguém e, em vez de acolhimento, recebeu comparação?
Já ouviu que a sua dor não era tão grande assim, que existia alguém sofrendo mais, que você precisava superar, que talvez estivesse exagerando?
Eu já ouvi.
E posso afirmar: poucas coisas machucam tanto quanto procurar abrigo e encontrar julgamento.
Quando uma mulher em situação de violência chega até alguém para pedir ajuda, ela não chega inteira, ela chega com medo, vergonha, culpa, confusão, muitas vezes sem conseguir nomear aquilo que viveu. E uma palavra mal colocada pode fazer com que ela volte para o silêncio.
Por isso, trabalhar com violência doméstica exige muito mais do que boa vontade. Exige preparo, responsabilidade, escuta, estudo e, sobretudo, humanidade.
Não é sobre disputar quem sofreu mais. Não é sobre medir a dor da outra com a régua da própria história. Não é sobre dizer “supere” para quem ainda está tentando sobreviver.
A dor de uma mulher não precisa ser comparada para ser validada.
Quantas mulheres chegam até mim dizendo que foram desacreditadas justamente quando mais precisavam ser ouvidas. Quantas deixaram de denunciar porque alguém minimizou sua história. Quantas se calaram porque ouviram que aquilo não era tão grave assim.
Violência doméstica não pode ser tratada com improviso.
Quem acolhe uma mulher vulnerável precisa entender que está diante de uma vida, não de um caso qualquer.
Porque, às vezes, uma escuta salva e uma fala sem responsabilidade pode destruir o pouco de força que aquela mulher ainda tinha.
Não brinque de cuidar de pessoas. Esse trabalho é sério, é técnico, é humano e pode ser decisivo entre uma mulher permanecer no ciclo ou finalmente encontrar coragem para sair dele.
Dra. Cláudia Lima - Advogada Especialista em Direito das Famílias e Violência Doméstica